Por mais motivos e espaços para se orgulhar

Por Bruno Carramenha

Às vésperas de iniciarmos o mês que marca o Orgulho LGBT+, dois importantes influenciadores dos nossos tempos causaram polêmica nas suas redes sociais ao republicar – em tom de concordância – o vídeo de um pastor que afirma que não é a favor, mas respeita o casamento gay. Entre as duas celebridades envolvidas, uma desculpou-se, voltou atrás e deletou o post; a outra reforçou o conteúdo: “Sou a favor do amor entre as pessoas. Mas existem pessoas que não são e precisamos respeitar”, pontuou.

A ideia de que valorizar a Diversidade é respeitar a opinião de todos, mesmo que ela fira a existência de alguns, é amplamente difundida e utilizada como estratégia por quem tem pouca afinidade com a temática ou desonestidade intelectual. Portanto, jamais deveria ser um argumento válido de um profissional de comunicação. Ainda assim, o assunto não é simples e nem merece tal tratativa.

Aliás, o professor Luiz Alberto de Farias lembra que a opinião se forma de uma maneira complexa, em um constante processo de representação e de reconstrução de significados a partir de uma interação entre dados externos e internos. Isto é, se por um lado, nossa opinião pessoal é formada por nossas próprias verdades, ela também é composta pela significação que damos ao que nos é externo. E a opinião pública, por sua vez, é efeito de um “processo de maximização de significações de interações e negociações de interesses concretos e simbólicos”[1].

As escolhas em um processo de comunicação precisam ser conscientes, quando vindas de agentes de relevância social, porque existe uma responsabilidade envolvida. Em Opinião Pública[2], Lippmann argumenta que estereótipos na nossa sociedade são criações a partir de abordagens simplificadas pela mídia acerca de temas complexos, que geram caricaturas e podem se converter em preconceito.

Minha [não] história nisso tudo

Até meus 20 anos de vida, eu pouco sabia sobre LGBT+ que não fosse o que era pautado pelo estereótipo criado pela mídia. A estranha hermafrodita [sic] do cangaço, o aluno assanhado da Escolinha, a travesti escandalosa na praça, a caminhoneira bruta, o cantor aidético [sic] que morreu, e assim por diante… A representação LGBT+ na mídia sempre foi desprezível ou risível, o que contribuía para meu enquadramento da pauta.

Eu conheci a primeira pessoa que se autodeclarou gay apenas quando eu tinha 20 anos, na faculdade. Não pense que cresci em uma cidade afastada ou privado [deliberadamente] de qualquer tipo de relação. Nasci e cresci em São Paulo, a grande metrópole latinoamericana; estudei em escolas particulares, fiz teatro, música, judô, inglês, Kumon. Frequentei muitas matinês de música tecno na pré-adolescência. Mas fui conhecer a primeira pessoa gay [que se autodeclarou para mim sem que isso fosse um tabu para ela] apenas aos 20 anos.

Eu nasci com as Diretas Já! Sou representante de uma geração brasileira que não viu a ditadura militar, mas que cresceu ouvindo histórias de repressão. E a população LGBT+ esteve entre os alvos principais da crueldade opressora deste regime – direta e indiretamente. Isto porque, para além das vidas LGBT+ que a perseguição militar tomou, centenas de milhares de histórias foram apagadas e minimizadas da narrativa social.

A [não] história da minha [não] história

Meus pais tinham 8 e 9 anos quando aconteceu a Rebelião de Stonewall, nos EUA, fato histórico que originou o mês do Orgulho LGBT+. Depois de uma violenta repreensão policial, milhares de pessoas protestaram pelos direitos da população LGBT+. O ano era 1969 e meus pais, ainda crianças, nunca souberam de qualquer manifestação ou pauta levantada sobre isso.

Entretanto, convém lembrar que no mesmo 1969, meus pais – cada um da sua casa, diga-se – assistiram pela TV quando o homem pisou na Lua pela primeira vez. O histórico “pequeno passo para o homem, mas grande passo para a humanidade” pautou fortemente o noticiário global daquele ano. Não havia quem não soubesse do feito dos militares norte-americanos.

Dez anos depois, meus já adolescentes pais tampouco tomaram conhecimento do [que por alguns foi chamado de Stonewall brasileiro, Primeiro Encontro Brasileiro de Homossexuais, protesto em objeção à violência praticada pela polícia contra gays, lésbicas e travestis, que ocorreu em 1980 no centro de São Paulo.

Em plena ditadura militar, nenhum dos casos teve relevante cobertura na imprensa brasileira tradicional, que sofria censura do governo golpista vigente. A falta de luz sobre determinadas questões nunca foi um relapso, mas uma estratégia.

Minha história nisso tudo

Aos 28 anos eu me entendi gay. E, desde então, é desta forma que me autodeclaro. Eu levei quase 10 anos do dia em que conheci um homem gay “normal” até entender que eu era um homem gay. [O “normal” entre aspas, aqui, é a forma de representar o “normal” do meu repertório pessoal até então.]

“Virar” gay aos quase 30 me permitiu tomar uma consciência ampliada da questão, antes de viver na pele a exclusão que um marcador social te dá. Até então, como um representante legítimo da parcela hegemônica da sociedade, sempre tive afinidade às questões sociais e incômodo com as desigualdades, mas nunca tomado para mim a responsabilidade.

O meu ingresso e desenvolvimento no mercado de trabalho foram como um homem hétero-padrão, o que me evitou um monte de situações, que ainda são uma realidade no mercado de trabalho. Quanto mais eu vivo, estudo e trabalho com a pauta da Diversidade, mais percebo que ainda estamos muito longe de nos tornarmos uma sociedade inclusiva de fato. São valiosas as conquistas [e têm que ser mesmo!], mas incipientes, quando ainda temos comunicadores levantando a pauta desta forma estereotipada e preconceituosa, como a descrita no começo deste texto.

Como professor e consultor de Diversidade, reforço a necessidade de ampliarmos o debate, e consequente naturalização, da questão LGBT+ nas empresas. A ação das organizações é um componente relevante de formação da opinião pública [tá aí o Magazine Luiza para provar que é possível uma iniciativa organizacional em prol da Diversidade pautar significativamente a agenda pública], por isso é preciso que o tema ganhe mais relevância no debate entre comunicadores e empresários e, principalmente, na adoção de práticas efetivas. Quebrar o tabu é um passo relevante para avançarmos mais rapidamente no contexto das organizações – isso passa por um uso adequado e consciente da comunicação.

A luta é diária e é muito importante estarmos sempre de mãos dadas nessa jornada!


[1] FARIAS, Luiz Alberto de. Opinião Pública, mídias e organizações. In. KUNSCH, Margarida (Org.). Comunicação Organizacional Estratégica. São Paulo, SP: Summus, 2016.

[2] LIPPMANN, Walter. Opinião Pública. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

Bruno Carramenha

Mestre em Comunicação, é autor de mais de uma dezena de livros, capítulos e artigos nas áreas de comunicação, cultura organizacional e diversidade. É também diretor da 4CO, consultoria reconhecida duas vezes como agência do ano pelo Troféu Jatobá PR.