Um novo semestre pede mais empatia no ensino remoto

Ano novo letivo chegando, e com ele nosso terceiro semestre lecionando nos cursos de Relações Públicas, por meio de ensino remoto. Muita coisa mudou dentro das instituições de ensino superior, contudo outras continuam iguais. Dentro do ensino de Comunicação, professores, alunos e coordenações fazem malabarismo para manter a qualidade do ensino e a atenção durante o tempo de aula.

Esse momento vem nos abrindo os olhos para as vantagens e diferenças do ensino à distância, a relevância das metodologias ativas como formas dinâmicas de manter a audiência dos alunos e tornar o processo de ensino remoto menos enfadonho. Prova disso é o uso da gamificação no meio acadêmico, que tanto defendo e cada vez mais colegas docentes me procuram para conhecer essa alternativa para o ensino de Relações Públicas.

Como RP, uma coisa que aprendi desde cedo, é a importância do mapa de públicos. Identificar suas expectativas e objetivos. Por isso, nesse texto, resolvi trazer um panorama empírico do retorno às aulas sob a perspectiva da visão de professores, alunos e coordenação de cursos de Relações Públicas.

Enquanto gestores e governo discutem o retorno das aulas presenciais, professores se transformam em artistas de live-aulas enquanto alunos se desdobram para continuar aprendendo. E em paralelo, um agravante na crise do ensino superior se instaura, menos alunos entrantes, muitos trancamentos e cancelamentos e consequentes cortes de gastos.

E como “gastos” que professores vêm sendo encarados em meio esses tempos de pandemia e afastamento social. Além dos cortes, turmas infladas, pouca estrutura tecnológica e pouco suporte para preparação de aulas que atendam as dinâmicas do ensino à distância. A final, do dia para noite, tivemos de nos preparar para fazer ensino remoto, porém seguindo processos da dinâmica presencial, tragédia anunciada visto às diferenças pedagógicas. Isso sem contar no terrível modelo de aula simultânea, onde parte da turma está presencial e outra parte remotamente.

Do lado dos alunos, encontramos a precariedade tecnológica como principal barreira. Muitos alunos dividem seus computadores de casa com seus irmão e pais, uma grande disputa para todos conseguirem acompanhar suas tarefas e rotinas. Talvez você pergunte sobre o celular, mas já tentastes ficar assistindo 3h diárias de aula por uma tela pequena, sendo obrigado a interagir com chat, enxergar anotações em slides e quadro branco e principalmente se conectando nas instáveis redes wifi de nosso país? Isso sem contar os complexos trabalhos que são despejados sobre os alunos, com prazos mais apertados e maior volume de produção, a fim de substituir as avaliações tradicionais.

Muito alunos, ainda estão trabalhando presencialmente ou precisando se reinventar financeiramente para continuar arcando com seus estudos e até mesmo que seu pouco conforto. Alguns foram obrigados a interromper seus estudos por falta de recursos financeiros ou tecnológicos. E, em meio a turma infladas e distantes, aqueles com dificuldade de aprendizagem muitas vezes são esquecidos ou arrastados pelos trabalhos e grupo.

Nas coordenações de cursos, recai-se toda a pressão. A exigência de “cortes de gastos” com professores e necessidades de juntar turmas, muitas vezes exigindo demissões e “ajustes pedagógicos”. Professores clamando por falta de condições e falta de suporte, assim como por menos cortes de aula. Alunos cobrando qualidade de ensino e mais empatia pelas suas dificuldades. Junta-se a isso, a pressão para manutenção dos cursos, devido baixa procura e aumento nos números de desistentes além da enfadonha papelada burocrática.

Todos problemas recaem sobre as coordenações, contudo pouca também é sua autonomia para tomar decisões realmente eficientes para todas requisições, muito vezes optando pela alternativa menos danosa. Tudo isso sem esperar reconhecimento, apenas menos reclamação.

Enfim, entre pontos positivos e negativos, começamos um semestre com vários desafios, alguns antigos e outros novos. Mas uma coisa infelizmente ainda se mantém, a necessidade de mais empatia com alunos, professores e coordenação. O bom senso, que nossa profissão de Relações Públicas tanto prega para a harmonia de todos os públicos.

O processo de formação não pode parar, e compreendo que toda mudança imposta e repentina leva tempo para se estabelecer. Já estamos melhores que o primeiro semestre de 2020, mas ainda temos muito que melhorar. E, com certeza, as coisas jamais serão como eram antes do afastamento social.

Raffael Martins – Conselheiro – Comissão de Relacionamento Acadêmico e Estudantil – CRAE – registro 4532 – CONRERP2 SP/PR