Uma chamada à consciência negra nas relações públicas

Fonte: Mundo Educação UOL

Hoje, dia 20 de novembro, foi instituído nacionalmente como Dia da Consciência Negra.

Mas, desde as primeiras hora do dia de hoje, acompanhando o noticiário, me encontro em um paradoxo angustiante: não poderia celebrar a data, pois na noite anterior o senhor João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, foi brutalmente assassinado no estacionamento do supermercado Carrefour. Mais uma vítima preta da violência, e que em algumas reportagens, o jornalismo muito rapidamente apresenta os antecedentes criminais da vítima, como se esta informação, colocasse em xeque, em dúvida, se o sr. João Freitas era mesmo uma vítima.

Perguntei em minha conta no twitter: “Quem são as agências de PR (tsc) e de publicidade que atendem a conta Carrefour? O que essas agências de comunicação recomendarão ao seu cliente, que já acumula sete episódios de violência cometidos por seus colaboradores – terceirizados ou não, não importa. O que farão?

Não está na hora das Relações Públicas também se ocuparem de salvar vidas, de salvar a sociedade da barbárie? Não está na hora da nossa profissão ser mais influenciadora de uma ética tão necessária, transformadora e indicar caminhos usando o nosso conhecimento, técnica? Não deveríamos ser mais vigilantes, proativos e evitar que a sociedade olhe o nosso árduo e necessário trabalho como atividades que protegem a imagem de pessoas e organizações que não se responsabilizam de forma pública pelos seus atos e omissões?

É nossa responsabilidade profissional, comunicar bem aos públicos. A maioria da população brasileira é preta, pobre, periférica. Nosso país é desigual. E até quando vamos produzir comunicações que ignoram esse público? Até quando vamos não educar os futuros profissionais sobre a sociedade que formamos, da qual fazermos parte e que sistematicamente comete violências físicas, mentais e simbólicas com sua gente? Que a população negra é um público que consome e precisa, trabalhar, andar nas ruas, respirar e viver em paz?

Qual o compromisso dos profissionais que fazem gestão dos relacionamentos com a luta antirracista? Assisto a tevê agora e o vice-presidente da República nega o racismo no Brasil. Você concorda, colega? O que estamos fazendo concretamente para mostrar aos Poderes constituídos, ao nosso mercado e ao empresariado brasileiro que sim, existe racismo no Brasil?

Peço, diante disso, algumas providências do nosso mercado. Ou seja: isso não depende só das nossas entidades representativas dos profissionais, das agências, das empresas, mas também das faculdades e universidades com cursos de graduação em RP Brasil afora – é um comprometimento coletivo do setor para a sociedade brasileira:

  1. Promover um censo para mapearmos quantos relações-públicas negras e negros existem no mercado, registrados ou não, e entendermos onde estão empregados (ou não), para tomar as providências necessárias para diversidade, equidade e inclusão;
  2. Identificar, à exemplo do que é reportado nos dados do IPEA, IBGE, as diferenças salariais, e abrir canais de denúncias de racismo, dentro das agências, no Conselho, nas associações para ocorrer uma ouvidoria social a respeito, pois há muitas vozes abafadas e silenciadas;
  3. Promover uma ampla formação (educação mesmo) no mercado e na academia sobre diversidade na comunicação, incluindo não só o campo das Relações Públicas, mas o Jornalismo, a Publicidade, Produção Audiovisual (RTV, Cinema), o campo da comunicação precisa somar integralmente ao antirracismo, pois temos papéis e responsabilidades sinérgicos;
  4. Adotar práticas de contratação de relações-públicas negras e negros, não só como estagiários, mais em posições pleno, sênior, consultores. Diversificar a contratação de fornecedores negros também;
  5. No campo do digital, quando seus clientes requerem criadores de conteúdo, indicar creators negras e negros para as campanhas, eles entregam resultados igual ou até melhores que os mesmos de sempre que são recomendados pelas agências;
  6. Contratar professoras e professores negros, valorizar suas pesquisas, rever as matrizes curriculares, ler artigos e livros de autoras e autores negros, debater com os alunos esses e outros assuntos da realidade do país;
  7. Acolher com empatia a diversidade, promover equidade em todos os espaços, consolidar uma inclusão não por estética, mas por uma ética e justiça social.

Este rol de providências, podem ser ampliadas e estudadas mais afinco, basta que acompanhem as ações da Diversity Action Alliance, uma coalizão internacional de agências de PR que já oferece guidelines para o nosso mercado sobre diversidade, equidade e inclusão e o Institute for PR que vem promovendo uma série de discussões sobre raça nas salas de aula norte-americanas. Podemos olhar essas experiências e aplicar aqui à nossa realidade.

Durante o ápice dos protestos pela morte de George Floyd em maio de 2020, algumas das maiores agências do nosso setor publicaram em suas redes sociais um quadrado preto e a hashtag #BlackOutTuesday como objetivo promover um momento de reflexão contra o racismo e a morte de pessoas negras. Questionei nas publicações delas no Instagram e no LinkedIn sobre seus números e ações antirracistas. Recebi respostas evasivas, algumas na linha da nota do Carrefour, e dizendo que eram signatárias do manifesto do ID_BR – Instituto Identidades do Brasil, entidade que faz advocacy e promoção da igualdade racial.

Acompanho estas agências e não vejo nada sequer parecido com o que Bayer, Magazine Luiza estão fazendo, mesmo assinando o compromisso com o ID_BR. Daí, pergunto: e quando estes e outros clientes começarem a adotar como regra que seus fornecedores – incluso agências de PR – também sejam diversas, por conta de ESG, ISE B3 e outros indicadores com marcos claros e específicos sobre diversidade? Como será, quando as matrizes das agências internacionais de PR começarem a ser marcadas nas redes sociais? Uma corrida desenfreada pela contratação sem a devida inclusão ou uma tomada de consciência concreta?

Estamos de olho…

Marcus Vinicius de Jesus Bomfim
Conrerp SP nº 3486
Professor universitário