Artigo: As causas precisam de comunicação com qualidade

As causas mudaram de patamar, é verdade. Ao longo da última década, vimos elas virarem documentários, iscas de campanhas de marketing e até motivo de disputas em fóruns internacionais. As causas vinham fazendo um percurso homeopático, mas os dados recentes demostram um acentuado crescimento do tema, fruto da entrada no mercado da geração y e, mais recentemente, da geração z. Essa é uma ótima notícia para nós, que cuidamos delas. Um público engajado facilita o percurso, afinal, você não precisa gastar a maior parte da comunicação tentando convencer a sociedade sobre a importância da causa, e sim sobre o que pode ser feito quanto a isso.

No entanto, outro desafio se apresenta: a qualidade da comunicação. As causas também são produtos que precisam ser comunicados com clareza e encantamento. As causas são problemas grandes que a sociedade não conseguiu resolver ou, pior, ajudou a criar, na maioria das vezes. Falar sobre causas demanda um olhar sensível, criatividade e muito, mas muito conhecimento das alavancas emocionais do público consumidor. Um desafio e tanto para quem conta com equipes enxutas, orçamentos apertados e, muitas vezes, poucos profissionais da área dedicados. Além do mais, um conflito bastante comum na comunicação das causas é a questão de quanto do orçamento deve ser usado para a comunicação em detrimento dos recursos que vão diretamente para a causa. Afinal, não comunicar a causa não garante sua compreensão e, portanto, pouco apoio. Se a sociedade não sabe a dimensão do problema, é difícil se sensibilizar por ele.

Nós, do Instituto Ayrton Senna, temos trabalhado e dedicado esses últimos anos à tarefa árdua do advocacy. Fazemos isso acionando todos os stakeholders do ecossistema da nossa causa, que é a Educação. A comunicação vem sendo tratada de forma estratégica, porque entendemos que só um bom conhecimento da causa e uma boa prestação de contas pode girar essa roda e transformar a percepção. É um trabalho de longo prazo, mas temos feito uso de todas as ferramentas disponíveis de comunicação. Esse ano, com o apoio da agência Africa e da produtora KILLERS produzimos uma campanha de comunicação que une a causa da Educação, nossa atuação e o legado do nosso ídolo Ayrton Senna. Com muita qualidade e criatividade de execução, conseguimos colocar de pé uma produção emocional, e não apelativa.

Não é trivial esse trabalho. É muito mais difícil que comunicar produtos, na minha percepção. Um bom teste para os criativos e estrategistas de marketing é comunicar causas. Com o crescente interesse por marcas “responsáveis e com propósito” é imprescindível a formação de profissionais de comunicação com olhar sensível e estratégico para causas. E eles precisam estar nos três campos de atuação: agências, empresas e causas. Na próxima década, veremos esse mercado se profissionalizar ainda mais, e espero estar aqui para dividir cases extraordinários. Até breve.

Por Fabiana Fragiacomo, gerente-executiva de comunicação e marketing do Instituto Ayrton Senna.

Fonte: ADNEWS